segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Crise Financeira, corrupção e revisão da ortodoxia a partir de Ha-Joon Chang



Por Bruno de Pierro, no Brasilianas.org



Da Agência Dinheiro Vivo




“Se a crise, que acontece no coração do sistema econômico neoliberal, não fizer com que as pessoas reexaminem as teorias ortodoxas de livre comércio, eu não sei o que o fará”. Essa é a avaliação do economista sul-coreano e professor da Universidade de Cambridge, Ha-Joon Chang, um dos principais críticos do modelo neoliberal na atualidade.


Em 2007, um ano antes da eclosão da crise econômica nos Estados Unidos, Ha-Joon publicou Maus Samaritanos, livro dedicado à desmistificação do mito do livre comércio. Espectador privilegiado do grande salto dado pela Coréia do Sul a partir dos anos 1970, Ha-Joon mostrou que países desenvolvidos, como Estados Unidos, Inglaterra e a própria Coréia, só deram certo porque, no início, mantiveram políticas protecionistas, abrindo seus mercados gradativamente, e exercendo controle sobre seus mercados.



Autor de mais duas obras importantes - 23 Things They Don't Tell You About Capitalism (2011) e Chutando a Escada (2002), este influenciado pelo economista alemão Friedrich List – Ha-Joon Chang é considerado um dos principais nomes da economia heterodoxa no mundo. Professor de Cambridge, já foi consultor do Banco Mundial, do Asian Development Bank e de governos do Brasil, Canadá, Japão, África do Sul, Inglaterra e Venezuela.


Leia a seguir os principais trechos da entrevista ao Brasilianas.org


Brasilianas.org - Qual a avaliação que o senhor faz da nova dinâmica dos BRIC, com o estreitamento de acordos de cooperação e de relações comerciais? Existe o risco de que esses países, como China e Índia, estejam seguindo a mesma receita de desenvolvimento dos países europeus?

Ha-Joon Chang - O rápido crescimento da China e da Índia, e o renascimento das economias do Brasil e da Rússia, depois dos problemas durante os anos 1980 e 1990, combinados com o relativo declínio das economias dos Estados Unidos e da Europa, certamente criou uma nova dinâmica. Até agora, os países que compõem o BRIC estão direcionados para manter suas relações com os mais pobres países em desenvolvimento de uma forma menos imperialista do que eles tipicamente observam entre países ricos e desenvolvidos. Mas, claro, isso pode mudar, conforme os BRIC se tornem mais poderosos.

Contudo, vai demorar algum tempo até os países do BRIC se tornararem tão dominantes quanto os países ricos de hoje, na sua relação com outros países em desenvolvimento. Os países do BRIC ainda representam apenas 15% da economia global, enquanto Europa, Japão, Estados Unidos e outras economias desenvolvidas representam 70%. Além disso, o BRIC ainda não tem o controle sobre a maioria das tecnologias básicas. Portanto, a sua posição relativa ainda é fraca.

Quais os principais fatores históricos da formação do Euro que refletem na atual crise? A adoção da moeda tinha por trás a idéia de integração em um ambiente de tranqüilidade, a despeito das diferenças culturais entre os países.
O problema da zona do euro reside no fato de que ela foi construída fora de um conjunto diversificado de economias, com diferentes níveis de renda e diferentes estruturas, sem colocar em prática os mecanismos que irão resolver as diferenças – o Banco Central, união fiscal e mobilidade de trabalho. Não há nenhuma barreira legal à mobilidade do trabalho, mas existem barreiras linguísticas e culturais. A integração apressada foi conduzida pelo desejo político de acelerar a integração européia, em face do colapso do bloco soviético e da reunificação da Alemanha, e não por razões econômicas.


Como o senhor observa o recente estresse da economia italiana?
A Itália é um caso interessante, porque, mesmo que tenha um grande estoque de dívida pública, o déficit atual de orçamento é relativamente baixo. O problema é que o Banco Central Europeu se recusa a resgatar, incondicionalmente, o bond (títulos de dívida) do governo italiano, e a Alemanha e outros países se recusam a monetizar a dívida, na questão dos Eurobonds, coisas que um governo nacional teria feito se algo desse errado com uma parte da economia.

Recentemente, o governo brasileiro aumentou o IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) para carros importados, e também instituiu imposto sobre operações com derivativos de câmbio. O senhor acha que o Brasil está acordando para a importância de beneficiar seu mercado interno, exigindo o retorno de empresas estrangeiras no desenvolvimento de tecnologia e incentivar toda a cadeia nacional?

Absolutamente. Se essas políticas são incompatíveis com os princípios da OMC (Organização Mundial do Comércio), é a OMC que está errada, e não as políticas. O desenvolvimento dos países precisa do espaço no qual eles possam desenvolver suas capacidades produtivas. E outras coisas, como a instabilidade financeira criada por fluxos de capital especulativo internacional e o limite tecnológico, com efeito de transbordamento, de companhias extrangeiras, necessárias por restrições da OMC sobre a regulação dos governos nacionais sobre empresas estrangeiras.


O senhor é defensor do IOF (Imposto sobre Operações Financeiras). O governo brasileiro decidiu reduzir o IOF de 3% para 1,5%, alegando que é uma medida para aliviar os bancos de pequeno e médio, os primeiros a sentir os efeitos da crise de crédito. Qual o impacto que a adoção do IOF tem num primeiro momento?

A origem dos nossos problemas econômicos hoje está na excessiva e frequente especulação no mercado financeiro. Tal atividade comercial aumenta a instabilidade financeira no curto prazo e força companhias a operar com horizonte de tempo muito curto, comprometendo assim a sua capacidade e disposição de investir para o longo prazo. O período médio de participação em empresas britânicas é, atualmente, de três meses, em comparação com cinco anos na década de 1960.


Em sua opinião, o conjunto que envolve bancos, consultorias e acadêmicos comprometidos com o mercado de capitais terá que agora passar pelo olhar de uma sociedade mais crítica, por meio de métodos de transparência? Quais os mecanismos de resistência que surgem agora?
Sim, se a crise, que acontece no coração do sistema econômico neoliberal, não fizer com que as pessoas reexaminem as teorias ortodoxas de livre comércio, eu não sei o que o fará. Infelizmente, os meios financeiros, político e intelectual tem resistido fortemente a este reexame e a esta reforma, o que significa que eles ainda se agarram às velhas idéias e tem feito seu melhor para minimizar a reforma do sistema. Apesar disso, acredito que mudanças significativas serão feitas. A crise fez muitas pessoas reexaminarem suas visões de mundo e propor algumas saídas que foram consideradas totalmente inaceitáveis até agora.
Por exemplo, o FMI e o Banco da Inglaterra propondo o uso do controle de capital e os governos da Alemanha e de outros países da Europa apoiando o imposto sobre operações financeiras. Com protestos como o dos Indignados, na Espanha, e o movimento de Ocupação, como o de Wall Street, há também suficientes demandas da população por mudanças. É muito difícil de prever grandes mudanças sociais, ninguém previu, por exemplo, a Primavera Árabe, mas eu acredito que essas transformações estão chegando.

É notável que as relações entre bancos, governos e mercado financeiro são extremamente obscuras, e muitas instituições mantêm contratos fraudulentos e nenhuma operação transparente. Do ponto de vista subjetivo, a economia é suficiente para explicar a crise? O que se tem pensado hoje sobre uma teoria do poder nas relações econômicas?
O dinheiro sempre foi a principal fonte de poder, mas a fusão dele com a política tem avançado significantemente nos período mais recentes, pelo menos em alguns países. A política econômica dos Estados Unidos foi gerida por Goldman Sachs nos últimos 20 anos; o governo britânico faz de tudo para agradar o setor financeiro, mesmo arriscando um isolamento total da União Européia; e Silvio Berlusconi, até recentemente, representou a pior forma de plutocracia. A forma de corrupção pode ser mais sutil. Por exemplo, em muitos países, reguladores financeiros estão dando tratamento de “luvas de pelíca” para o setor financeiro, em parte porque são estes seus futuros empregadores.
A atual crise tem também exposto muita corrupção escondida. Ela revelou uma teia enorme de corrupção e abuso de informação privilegiada; a Islândia costumava classificar bem no topo da boa governança e da transparência, geralmente entre os cinco primeiros países. Após a eclosão da crise, o sistema financeiro dos EUA, considerado padrão-ouro, expôs também como é extremamente corrupto e opaco. Tudo isso mostra que precisamos criar mecanismos para controlar melhor a penetração do dinheiro na política.



(Grifos nossos).


Fonte: http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/exclusivo-a-crise-global-segundo-ha-joon-chang#more

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